Uma empresa de desenvolvimento humano e empresarial que atua no mercado europeu necessitava realizar uma Devida Diligência Reforçada (EDD) sobre um de seus potenciais parceiros, uma empresa fornecedora de equipamentos elétricos e audiovisuais focada em contratos públicos em Portugal. O objetivo era mitigar riscos e assegurar a Conduta Empresarial Responsável (CER), conforme exigido pelas diretrizes da União Europeia e da OCDE, evitando o contágio reputacional ou financeiro decorrente de eventuais inconformidades do fornecedor em relação aos direitos humanos, legislação trabalhista e práticas anticorrupção.
Superficialmente, o fornecedor parecia ser uma pequena operação de varejo, com poucos empregados e atuação discreta. No entanto, a investigação conduzida pela MONTAX revelou tratar-se de uma Sociedade Anônima cujo modelo inicial de “ações ao portador” indicava uma intencionalidade de opacidade no controle acionário. A investigação mapeou a existência de Pessoas Expostas Politicamente (PEP) no quadro diretivo, identificou indícios de ausência de transparência na gestão de resíduos eletrônicos e apontou a necessidade de mecanismos adicionais de auditoria de integridade para confirmar a identidade dos reais beneficiários.
O relatório forneceu recomendações práticas e um formulário de Compliance estruturado para garantir que a consulente não assinasse contratos baseados apenas em aparências comerciais, protegendo a empresa contra pesadas multas regulatórias europeias.
1. A Situação Inicial
Em um cenário europeu cada vez mais rigoroso quanto à Sustentabilidade Corporativa, as empresas são corresponsáveis pela conduta de toda a sua cadeia de fornecedores. Nossa consulente estava em vias de formalizar uma parceria com uma fornecedora portuguesa de tecnologia e audiovisual. Antes de avançar, o departamento de conformidade da consulente requisitou um estudo para avaliar potenciais impactos adversos sobre os direitos humanos, o meio ambiente e as regras de compliance corporativo que poderiam envolver a empresa-alvo.
2. O Problema Aparente
O primeiro obstáculo na qualificação do fornecedor era a sua estrutura jurídica: uma Sociedade Anônima fechada de “ações ao portador”. Trata-se de um modelo amplamente reconhecido como um veículo de baixa transparência, que dificulta a identificação dos verdadeiros donos (Beneficiários Finais), gerando um alerta precoce quanto ao risco de lavagem de capitais e evasão fiscal.
3. A Complexidade Oculta
Ao analisar os dados operacionais, a MONTAX deparou-se com uma discrepância intrigante. Apesar de se apresentar como uma empresa com menos de 10 colaboradores e uma sede modesta correspondente a uma “loja” em Benfica, o fornecedor demonstrou extraordinária capilaridade no setor público. Havia celebrado dezenas de contratos por “ajuste direto” (sem licitação prévia) com universidades, câmaras municipais, ministérios e agências governamentais, totalizando valores expressivos logo nos primeiros anos de fundação. Além disso, as atividades da empresa exigiam importação massiva da China, um país com desafios crônicos em direitos humanos, adicionando camadas de risco à cadeia de suprimentos.
4. A Necessidade de Inteligência
O cliente precisava compreender se o sucesso da fornecedora no setor público advinha unicamente da sua eficiência e know-how ou se era alavancado por conexões indevidas. Sem identificar quem, de fato, exercia o controle da empresa ou se havia conflito de interesses na adjudicação de contratos públicos, a consulente assumiria um “risco cego” capaz de desencadear severas punições com base na regulamentação europeia Anticorrupção e Anti-Branqueamento de Capitais (AML).
5. A Abordagem da MONTAX
A MONTAX empregou seu framework de Inteligência de Fontes Abertas (OSINT), adaptado às exigências do Guia de Devida Diligência da OCDE. A equipe extraiu o histórico de dezenas de alterações societárias nas Conservatórias de Registos Comerciais de Portugal. Cruzou informações com bases de dados da Autoridade Tributária e Aduaneira e mapeou todos os contratos adjudicados publicamente em plataformas de transparência europeias, identificando a rede de relacionamentos políticos e as conexões entre os supostos membros do conselho.
6. Os Principais Achados
As investigações evidenciaram conexões relevantes que demandavam análise de risco:
- Envolvimento de PEP (Pessoa Exposta Politicamente): O Presidente do Conselho de Administração da empresa e um de seus sócios-fundadores tinha histórico político como Deputado Municipal (Suplente) e fora candidato ao Parlamento Europeu, representando um alerta obrigatório para políticas Anticorrupção.
- Conversão Forçada: Verificou-se que a empresa só converteu as suas “ações ao portador” em “ações nominativas” porque foi obrigada por uma alteração na legislação nacional desenhada especificamente para combater a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo, um sinal de relutância quanto à transparência.
- Risco Ambiental: A empresa importa produtos eletrônicos num país (Portugal) apontado pela Eurostat como o que pior faz o tratamento e descarte de Resíduos Elétricos e Eletrônicos na Europa, sem que o fornecedor exibisse um plano ambiental robusto.
7. O Significado dos Achados
Os elementos não comprovavam cabalmente um crime, mas consolidavam um perfil de “risco moderado/elevado” caso não fosse bem gerenciado. O sucesso vertiginoso em contratos de ajuste direto associado à figura de uma PEP indicava que a consulente devia exigir total clareza documental antes de fechar negócios, pois eventual sanção regulatória recairia sobre todas as empresas associadas àquela cadeia.
8. Impacto Estratégico
Ao apresentar o relatório e listar os achados baseados em provas judiciais e registrais (Documentos Classe A), a MONTAX posicionou a diretoria do cliente em um patamar de segurança decisória. A classificação oficial sugerida foi de “Risco Limitado” desde que condicionada a uma série de providências técnicas de controle, o que blindou a consulente do contágio regulatório por omissão (negligência no dever de investigar a sua cadeia produtiva).
9. Aprendizados do Caso
- A opacidade não é neutra: Estruturas societárias que ocultam os verdadeiros acionistas, especialmente daquelas que transacionam com fundos estatais, exigem abordagens de Compliance avançadas e formulação de relatórios de identificação de beneficiário final.
- Due Diligence ASG não é papelada: Analisar um fornecedor importador de eletrônicos obriga a questionar as suas práticas laborais nos países de origem (Direitos Humanos) e os métodos de descarte (Meio Ambiente).
- Contratos estatais frequentes e PEPs: A interseção de Pessoas Expostas Politicamente com dezenas de contratos públicos por “Ajuste Direto” é a definição primária de alerta (red flag) em qualquer matriz de risco internacional.
10. Ações Necessárias
Não comprometa o seu negócio validando fornecedores com base em pesquisas rasas de internet. A MONTAX possui inteligência e metodologia para investigar parceiros em múltiplas jurisdições e garantir a Conduta Empresarial Responsável da sua operação. Conheça nosso serviço de Due Diligence Investigativa para fornecedores e parceiros estratégicos (KYP/KYS).
SOBRE OS AUTORES

Marcelo Carvalho de Montalvão é Advogado criminalista especialista em Direito Penal Econômico e investigação de crimes financeiros. Diretor da Montax Inteligência, franquia de Inteligência Financeira & Investigações Corporativas para a Recuperação de Ativos, Consultoria de Risco, Compliance e Due Diligence com sede no Rio de Janeiro-RJ que já auxiliou centenas de escritórios de advocacia e departamentos jurídicos de corporações como The Coca-Cola Company (Atlanta), Petrobras S/A, PSA Group (Peugeot Citroën), Claro S/A, LG Eletronics, Kellog, Sonangol Oil & Gas e muitas outras marcas.
Autor do livro Inteligência & Indústria – Espionagem e Contraespionagem Corporativa.
Conecte-se com o Marcelo no Linkedin. Ouça-o no YouTube.
Envie um e-mail para montax@montaxbrasil.com.br


